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17 de ago de 2011

Agente Supremo: “Antes, Usávamos o Hip-Hop Contra o Sistema… Hoje, o Sistema Usa o Hip-Hop Contra Nós [Entrevista]

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Saudações cordeais! Daqui é o Jonaszvara emitindo vibrações positivas.
Eu nunca consegui perceber o homem com quem vou conversar a seguir. Por vezes, ele mostra-se ser enigmático e quase sempre anti-social. Estarei eu a ser sociável demais, ou estará ele a ser mal-entendido?

As perguntas que foram feitas poderiam ser respondidas por qualquer um, mas não na mesma dimensão que ele respondeu. As perguntas não menos importantes acabaram por tornar-se nas mais importantes. É caso p’ra se dizer: a pedra que os construtores recusaram, tornou-se na pedra angular. 

Espero que disfrutem da entrevista e que mais do que ler procurem perceber o quê que está a acontecer nas suas palavras.

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A Entrevista:

1. Descreve-nos o Agente Supremo como artista e como Homem?

Agente Supremo
: Descrever o Agente Supremo enquanto artistas é falar duma entidade que por meio do RAP procura levar informações inéditas e ocultas á superfície. E enquanto Homem, é falar de um simples urbano solitário!

2. De onde surgiu o nome Agente Supremo?

A-S:
Bem! O nome Agente Supremo surgiu da necessidade de estabelecer-se uma correcção entre o título que me identificaria dos outros rappers e o tipo de RAP que eu me predispus a fazer. Sendo este, de carácter altamente interventivo.


3. Fala-nos um pouco sobre o seu álbum por sair, O que os “manos do RAP” podem esperar dele?

A-S: Longe da estática… O meu álbum é uma relíquia! Primeiramente porque requereu de mim um grande esforço a nível investigativo e meditativo. Seguidamente, pelo facto de ele comportar letras elevadamente compostas que priorizam as informações inacessíveis á maioria. E p’ra muitos, o que eu canto não fará sentido. Mas essa é a diferença entre a verdade e a ficção; a ficção tem que fazer sentido!

Eu costumo a dizer que eu faço RAP de causas e não de consequências. Ou seja, as minhas letras revelam aspectos ocultos que dão origem aos actos visíveis. É como tu entrares numa casa de banho inundada e ao invés de limitares-te em limpar o chão… fechas a torneira! O chão inundado é a consequência… A torneira aberta é a causa. Muitos cantam que o chão está inundado… eu canto que a torneira está aberta! Portanto, não esperem nada fora disto.


4. Data do lançamento?

A-S:
É quase impossível falar-se duma data específica para o lançamento do álbum pelo simples facto de se tratar duma obra livre e independente. Onde os aspectos de carácter financeiro muitas vezes constituem um grande entrave. Mas, não obstante os obstáculos, estou quase certo de que ele será lançado ao mercado ainda este ano de 2011.


5. Qual é o impacto que terá este álbum na sociedade angola?

A-S:
Bem! Eu considero que o meu álbum não é Angolano… é cósmico! Pois, ele é adaptável a qualquer contexto social. E sociedade em Angola é igual a sociedade no Brasil, é igual a sociedade na Inglaterra e é igual a sociedade nos Estados Unidos de América; Um perfeito eufemismo para prisão! 

Quanto ao impacto que o álbum terá nesta sociedade! Será o mesmo impacto que sente uma criança ao ouvir pela primeira vez que Pai-Natal não existe!


6. Se o álbum for 100% a sua imagem, não achas que terá uma temática muito pesada para algumas pessoas?

A-S:
Primeiramente é necessário que as pessoas saibam p’ra quem é que eu canto… Eu canto para os sábios! E os sábios do qual eu me refiro, não são aqueles que são portadores de grande conhecimento… Mas aqueles que reconhecem que ainda não sabem tudo e precisam aprender cada vez mais.

Agora! A temática do meu álbum muito pesada? A verdade é muito mais pesada que isto. E eu nem sequer reclamo!


7. Como músico em Angola, pensas que tens o devido apoio e reconhecimento?

A-S:
Bem, eu não diria como músico mas sim como Rapper! Pois, a música é um tanto quanto padronizada, comporta certos parâmetros que o meu RAP cabalmente desrespeita. Entretanto, eu prefiro ser tratado como Rapper.

Como Rapper de intervenção social, o apoio e o reconhecimento que eu tenho recebido está circunscrito a um grupo restrito de pessoas que identifica-se com os meus ideais. Entre eles estão amigos, familiares e aqueles que acompanham o que faço.

Todavia, eu não me faço triste pelo facto de ter tido o apoio e o reconhecimento que tenho, pelo facto de serem poucos os que livremente abraçam a verdade… ela significa responsabilidade e muitas pessoas não querem ser responsáveis!


8. Qual é a tua ideia a cerca do Movimento Underground?

A-S:
OK! Eu tenho uma visão muito pessoal no que concerne ao Underground. Longe do que muitos pensam… eu não encaro propriamente o Underground como sendo um estilo do RAP, mas um estado. Ou seja, uma forma de estar á margem dos grandes palcos da visibilidade mediática.

Eu não sou Underground… Eu estou como Underground! Pois, o Underground não é um ser mas sim um estado. É como na Universidade ou na presidência da república, ninguém é presidente… alguém está como presidente. Ou seja, para qualquer posição temporária não se pode ser, só se pode estar.
       

9. Como surgiu a sua paixão pelo hip-hop? E porquê o hip-hop?

A-S:
Com relação ao que eu sinto pelo Hip-Hop ao contrário de paixão… é amor. A paixão quando inflamada torna-se perigosa. O amor é incondicional, livre e independente. Não escolhe quem, como, e quando. Simplesmente ama-se!
O meu amor pelo Hip-Hop surge a partir do momento em que eu reparei que poderia direccionar as minhas poesias para o estilo ritmado que ele comporta (RAP).

Porquê o Hip-Hop? Porque o Hip-Hop contém uma característica muito própria! É uma cultura cujo fim único é libertar as pessoas oprimidas. E dada a minha apetência de querer transmitir informações que levam uma mensagem de distúrbio – A verdade não consola ninguém - acabei por identificar-me com ele.

Fazendo uma incursão ao tempo, é bonito saber como alguns afro-americanos e latino-americanos usavam o Hip-Hop p’ra se libertarem da opressão vigente na altura. Uma simples escrita grafitada nas paredes das estações do metro dizendo não ao racismo “no racism”; um simples movimento acrobático propulsado com toda energia: um simples encontro fraternal nas tardes de domingo ao som agradável de músicas marginalizadas tocadas por alguém conhecedor da mixagem; e um simples verso mesclado de esperança dizendo queremos mudanças “we need change”, significou muito p’ra aqueles povos excluídos.

Antes, usávamos o Hip-Hop contra o sistema… Hoje, o sistema usa o Hip-Hop contra nós…!


10. Como é que encaras o Hip-Hop em Angola e como descreve a sua evolução?

A-S:
Eu vou limitar-me a falar do Hip-Hop em Luanda porque desconheço a realidade das outras províncias.
O Hip-Hop em Luanda encontra-se letárgico. Isto se não se cair no erro de confundir o Hip-Hop com o RAP.

Não obstante o RAP ter uma relativa expressão, os outros elementos do Hip-Hop estão inertes. Vão surgindo alguns grupos de B-Boys, alguns poucos Graffwritters, poucos DJs mas ainda não há a tal coesão que se espera de um movimento que se pretende sólido e compacto. Pois, há um grande fosso entre o RAP e os outros elementos do Hip-Hop.


11. Quais são as tuas influências literárias?

A-S:
Na ânsia de não cair na ignorância eu procuro ler de tudo um pouco. Sobretudo livros que abordam assuntos com carácter inovador.
Todavia, tenho uma preferência por livros de conspiração, gnosticismo, espiritualidade e esoterismo.


12. Quais são as tuas influências musicais?

A-S:
Quanto a música eu sou um pouco mais selectivo e conservador. Gosto de ouvir Soul-Jazz e um pouco de Hard-Rock. Mas para fazer RAP não ouço nenhum tipo de música… só ouço Rap de boa qualidade temática.


13. Como tem sido a sua relação com os Mcs angolanos?

A-S:
Eu só posso falar da minha relação com os MCs que eu conheço! E eu penso que ela tem sido a possível. Na medida que eu nunca tive problemas com nenhum deles. Não obstante, ter uma relação não muito estreita com a maior parte deles, há sempre alguma afinidade entre nós.


14. Como encara o hip-hop no mundo lusófono em geral?

A-S:
Eu escuso-me a responder esta pergunta! Pelo simples facto de – com excepção á Angola e especificamente Luanda - desconhecer a realidade actual do movimento Hip-Hop nos outros países da lusofonia.


15. Que artistas de RAP em Angola você passa para faixa seguinte quando ouve? E já agora, quem tu consideras como sendo o melhor Rapper?

A-S:
Passar para aproxima faixa não… Desligar o reprodutor de tal música!
Todos aqueles Rappers cujas músicas limitam-se a narrarem aspectos consequenciais da realidade visível, são veementemente descartados por mim.

Agora, quanto ao melhor Rapper! P’ra mim o melhor Rapper Angolano é todo aquele que apesar das várias imposições, contratempos e tentações que tem sofrido não só pela sociedade mas também pelo circuito Rap, mantem-se vertical no que concerne aos princípios que advoga.


16. Quais são os três álbuns que consideras como sendo de todos os tempos?

A-S:
Há muitos álbuns que mereçam ser considerados como sendo de todos os tempos!

Entretanto, vou expor somente alguns de antologia:
- Entretanto  (Sam The Kid);
- Un dia en Suburbia  (Nach);
- The prefix of Death  (Necro).


17. Quais são os 5 Produtores Angolanos que mais consideras?

A-S: Eu tenho consideração por todos os produtores Angolanos. Até porque se eles não existissem… não estou a ver qual seria a posição dos Rappers!

Todavia, há alguns produtores com os quais eu me identifico. Eis a lista:
  - Ricardo (2R Produções); …O puto é genial!
  - Grande Boni (Diferencial Produções); Com o Fruit-loops era vulgar… Mas com a MPC tornou-se brutal!
  - Flagelo Urbano (Zoológico Produções); Não pela sonoridade dos beats nostálgicos… mas pela longevidade no conservadorismo.

18. Qual a sua opinião acerca do actual clima político do país?

A-S:
A peça teatral ainda não terminou… E não terminará tão cedo! Os actores (políticos) continuam a representar perfeitamente os seus papéis… e a plateia (povo) continua a deleitar-se efusivamente com teatro. Mas parece que aos poucos ela se vai esquecendo que trata-se duma representação, confundindo o Personagem com o Homem. E Ai está o grande perigo! Pois, a política não é nada mais do que uma peça teatral… e os políticos estão só a interpretar personagens. Eles não são aquilo que aparentam ser!


19. Qual é a sua opinião acerca da corrupção?

A-S:
A sociedade criou dispositivos muito tentadores e inteligentes que desintegram e destroem a integridade do indivíduo! O dinheiro é um desses tremendos e poderosos dispositivos. E a corrupção é simplesmente uma das suas consequências.

Portanto, ela só cessará quando as pessoas tomarem consciência e passarem a olhar para o dinheiro como um pedaço de papel contendo alguns rostos e assinaturas. Nada mais do que isso!
 

20. As eleições de 2012 aproximam-se, e o governo inaugurou o Projecto Novo Kilamba Kiaxi! Será que é uma propaganda?

A-S: Olhando para o ângulo mais próximo da realidade, vê-se que o partido no poder inaugurou o Projecto Novo Kilamba Kiaxi pensando nas eleições de 2012. Mas aí está o problema. Há que se olhar para o ângulo mais distante… de modos a obter-se um campo de visão maior! Estão-se a criar bases sólidas para daqui a sensivelmente 50 anos este pais se transformar num autênticos Estados Unidos: o berço das elites!


22. Como encaras a sociedade angolana em geral?

A-S: Como qualquer outra… doente! O que é que as pessoas diriam se alguém por vontade própria tenta algemar-se tanto nos braços como nas pernas? Elas diriam que este homem é louco. O que é que ele está a fazer ao algemar-se sozinho? Ele precisa de ajuda e rapidamente. Sim, precisa mesmo, mas ele não está sozinho! Porque as pessoas da sociedade fazem exactamente a mesma coisa. Criam e aprovam leis absurdas que transformam-se em códigos de conduta onde a liberdade de cada um vê-se circunscrita. E sendo assim… parece que elas também precisam de ajuda!


23. Tens fé no futuro de Angola?

A-S: Neste momento qualquer esperança depositada no futuro de uma Angola livre e independente é meramente utópica! Porque ao invés das pessoas receberem de volta o direito de definirem aquilo que elas acham melhor para elas mesmas, elas preferem estar sentadas no sofá defronte a televisão a espera que os políticos façam o que quiserem com suas vidas.

Liberdade é o direito de fazer o que a lei permite. E a lei só permitirá o que interessa aos governantes. Eles fazem a máquina sociedade mover-se de acordo aos seus intentos; Intelectuais dotados de conhecimentos insípidos e ignorantes sem perspectiva de vida que deixam os seus direitos de decisão á mercê daqueles que os governam.


24. Qual o teu livro preferido?

A-S:
O meu livro preferido é aquele em que o escritor não está mais sonhando – olha a realidade, e da realidade nasce a sua obra.


25.  Fim das Citações!

A-S:
Primeiro, eu gostaria que as pessoas que gostam daquilo que faço não fizessem da minha pessoa um ídolo. Porque senão estarão a fazer o mesmo trabalho que o sistema; sempre que aparecer um ser distinto (Maomé, Buda, Lao Tsé, Jesus) fazer dele um modelo para que as outras pessoas o sigam e o cultuem de formas a não haverem mais distinções! Quem fazer de mim um modelo limitar-se-á. Façam de mim um princípio… e não um fim!

Segundo, enviar frequências positivas para todo mundo. Em especial á aqueles que respiram da mesma atmosfera mental que eu, nomeadamente o Ibrivernáculo e o Organoydz.

Entrevista gentilmente cedida por Jonaszvara a partir do blog:
MbalaNguimbi

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